sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Tarde demais

Fernando olhou para a clarividente e perguntou desolado:

_ Por favor, Dona Clara, o que está vendo nas cartas? Onde está Marta? Agora, percebi que a amo de verdade. Tenho as chaves da nossa casa. Ela foi embora da cidade e não me avisou. Agora, percebi que a amo de verdade! Por favor, onde ela está?

Dona Clara apertou os olhos pequenos e olhou para as cartas de tarô. O seu consulente estava apaixonado. Era um médico divorciado e bem sucedido. A cartomante conhecia a história do doutor Fernando. Não conseguia ver nas cartas, exatamente o lugar para onde teria ido Marta. Doutor Fernando talvez tivesse perdido seu grande amor!

Enquanto, a clarividente se concentrava nas cartas, Fernando ficou relembrando sua história de amor. Marta apareceu em sua vida como um flash de luz. As gargalhadas estridentes. A roupa decotada. O sorriso maroto. Fernando tinha tudo na vida: mulheres, dinheiro e carros. Não queria compromisso sério e, muito menos, outro casamento.

Conheceu Marta num supermercado. O seu carrinho de compras quase se chocou com o carrinho da Marta. Era uma mulher de seios fartos, alta e esguia. Um jeito de se vestir quase extravagante. Uma semana depois, Marta foi à casa do doutor Fernando. Era mais um caso na vida do médico. Não gostava de mulheres com aparência vulgar. Sairia com Marta apenas mais uma vez. Nada mais! Flores, um cartão e adeus!

Um mês se passou. Três meses. Dois anos. Marta ficou na vida de Fernando. Ele gostava dos seus carinhos. Marta sempre o recebia com um sorriso gentil, uma sopa fumegante ou um jantarzinho íntimo. Aquela casa simples era seu ninho de amor. Um dia, Marta se queixou:

_ Fernando, você é um doutor importante na cidade, mas é um homem livre. Não ligo para seus carros, sua carreira e nem para seu dinheiro. No entanto, estou triste!- seus olhos ficaram rasos d´água.

_ Triste, por que, Marta? Estou aqui, não estou? Namorada de médico é assim mesmo. Você tem que ter paciência comigo. Não tenho muito tempo! Plantões. Cirurgias. Você mesma diz que deseja morar comigo. Conviver com a rotina de um médico não é fácil.- Fernando acendeu um cigarro e ficou olhando para a fumaça.

_ Você diz que sou sua namorada, mas acho que tem vergonha de mim, doutor.- concluiu Marta com os olhos rasos d´água. Fernando não gostava de lágrimas e nem muito menos de cobranças.

_ Ora, linda, eu te amo!- e abraçou a mulher com paixão.

_ Você nunca sai comigo. Nunca vamos a um restaurante.- desvencilhou-se do seu abraço. Enxugou as lágrimas com a costa da mão.- Só nos vemos dentro de 4 paredes. A única vez que estivemos juntos em público, foi quando nos conhecemos naquele supermercado. Lembra-se? - Marta estava com a voz embargada. - Acha que eu me visto mal? Você tem vergonha de mim! Não sei falar bonito, mas sou uma mulher educada. Você não é um homem casado. Por que temos que namorar escondido, amor? - ela perguntou com ternura.

Fernando tragou o cigarro e olhou para Marta. Sentia-se constrangido, quando ela começava com suas intermináveis cobranças. Fernando não queria compromisso. Marta tinha um caso com um importante cirurgião! O que ela queria mais? Casar, morar junto, sair de mãos dadas na rua? Fernando deu de ombros. Assim, estava bom para ele. Encontros furtivos, jantares românticos e nada mais. Marta pensava que era a única mulher em sua vida. Não era. Fernando não tinha um comportamento fiel com as mulheres. Acariciou os cabelos negros da sua amada e contemporizou:

_ Não me cobre, meu amor! Tenha paciência comigo!- sussurrou.

_ Queria ir à uma festa com você. Entrar no salão com vestido de baile. É o meu sonho!- seus olhos brilhavam.- Marta sorriu orgulhosa.- O dia dos médicos está próximo! Morro de vontade de ir à festa dos médicos com você. Você me levará, benzinho? Eu o amo muito! Você não sabe o quanto!

Fernando ficou aborrecido e foi para a casa. Compareceu a muitas festas elegantes e não convidou Marta. Ela não mais tocou no assunto. Sempre o recebia com aquele sorriso sensual. Fernando vibrava de paixão nos braços da sua Marta. Nada pedia. Nada cobrava. Quando estava naquela casa simples, ele se esquecia da doença e da morte. Somente felicidade. Carinhos. Desejo. Paixão.

Marta vivia apenas de esperança. Chegava do trabalho e ficava à espera do seu amor e nem sempre ele vinha. Esperava ansiosa pelos seus telefonemas. Contava os dias para vê-lo. Os fins de semana solitários. Tardes chuvosas. Choro. Decepção. Marta jamais usou seu vestido de festa.

Uma noite, Fernando chegou de surpresa na casa de Marta com uma garrafa de vinho. Chegara de viagem, estava saudoso e cheio de desejo. Quinze dias sem ver a namorada. Parou o carro em frente à casa da Marta. Desceu do carro e abriu o portão. Estranhou. Varanda vazia. Sujeira no chão. O coração disparou. Abriu a porta da sala e estranhou. Viu apenas uma velha cadeira. Cômodo praticamente vazio. Ganhou o quarto. Sem cama. Sem lençóis de seda. Sem Marta.

Enxugou o suor da testa. Foi até à casa do vizinho. Bateu à porta. Uma senhora apareceu e perguntou:

_ O que o senhor deseja?

_ A senhora conhece a Marta? Morava nessa casa ao lado. Não tem ninguém em casa. Está vazia!- Fernando estava ansioso. Seu coração disparado.

_ Ah, a Marta? Quase não a via...Às vezes, a via no portão, como se esperasse alguém. O senhor é parente dela?- perguntou a mulher com certa ironia.- Não tinha amizade com ela, mas acho que se mudou. A casa será alugada. Conheço o dono da casa. Marta foi embora da cidade. - afirmou a mulher. Fernando sentiu um aperto no peito e perguntou:

_ A senhora sabe onde ela está?

_ Sinto muito, senhor. Marta se mudou há dez dias.- a mulher despediu-se e fechou a porta.

Fernando sentiu um nó na garganta. Marta havia se mudado da cidade. Celular desligado. Mudança. Havia perdido Marta... talvez para sempre. Os dias se passaram. Como ele esperou com ansiedade por sua voz macia no celular! Como esperou saudoso por seus torpedos carinhosos! Sentiu falta. Saudade apertada. Remorso. Ah, se pudesse voltar atrás.. Levaria sua amada à uma linda festa. Teria orgulho dos seus vestidos vermelhos e até do seu decote generoso. Sentiria-se envaidecido da sua alegria espontânea.

E, por esse motivo, Fernando havia procurado uma cartomante. Desamparado. Desesperado. Totalmente apaixonado.

Clara abriu as cartas do Tarô e disse:

_ Ela está muito longe, doutor. Não estou conseguindo ver mais nada. O senhor foi avisado, não? Ela queria apenas um pouco mais da sua atenção.- concluiu a cartomante com os olhos fixos no homem. O senhor foi muito amado.- afirmou fitando o médico com ar grave.

_ Ela me abandonou! Isso é amor? - Fernando estava revoltado.- Eu pago quanto a senhora quiser! Por favor, quero que ela volte!- o homem estava quase implorando.

Num flash da sua memória, Fernando lembrou-se do último encontro na casa da Marta. Vestida de vermelho. Sapato alto preto. Bico fino. Ela o esperava no portão.

_ Por favor, vamos sair um pouquinho, Fernando? Juntinhos, como dois namorados?- pediu súplice.

_ Ora, Marta, estou cansado! Vamos ficar em casa mesmo.- ele decidiu. Esparramou-se no sofá e tirou os sapatos.

_ Não adianta! Você tem vergonha de mim!- ela gritou e jogou longe os sapatos pretos. Um dia, eu me cansarei e será tarde demais! - avisou com um olhar triste. Fernando jamais levava a sério os rompantes da Marta. Sempre voltava. Estava sempre esperando por ele.

Agora, sentia o gosto amargo da perda. Tinha vergonha de Marta, das suas risadas cristalinas, da sua roupa extravagante. Afinal, ele era um doutor! Agora, na casa da cartomante, era apenas um homem desolado. Olhos pesados feitos de insônia. Gosto amargo na boca. Um cigarro atrás do outro. O doutor apenas desejava o seu amor de volta.

A cartomante não sabia o que dizer. No entanto, sua intuição não falhava. Aquele médico havia perdido o grande amor da sua vida. Precisava aprender aquela lição. Abater o orgulho e o egoísmo. Às vezes, o ser humano só dá valor ao que tem, quando perde!

_ Vou rezar por vocês dois e o destino fará o resto. Não posso fazer mais nada, doutor. - disse Clara com firmeza.

_ A senhora tem poderes! Olhe as cartas e me diga onde ela está!- o médico estava quase gritando. - Estou desesperado, dona Clara!

_ Desculpe, doutor! Não posso mentir só para agradá-lo. Sinto que ela está muito longe, talvez fora do estado de São Paulo. Vou acender algumas velas. O senhor sabe rezar? - ela perguntou.

_ Não costumo rezar muito, mas...- seu olhar estava distante.

_ Reze mais! Dê uma direção à sua vida amorosa. No passado, o senhor foi infeliz. Agora, não se envolve mais porque sofreu muito. Mas por que sofreu? Teve uma boa esposa, mas foi infiel. O senhor sabe que tem parte da culpa no fim do seu casamento. Errar faz parte do nosso aprendizado na Terra. Não iluda mais as mulheres com promessas não cumpridas. Seja sincero sempre! - Clara guardou as cartas.

_ Por favor, me dê uma esperança!- pediu, enquanto abria a carteira.

_ Fique calmo! Minhas orações são fortes!- Clara sorriu.

Fernando pagou a consulta e saiu. Estava um pouco mais calmo. Aos poucos, a lembrança da Marta começou a se apagar da sua memória. A saudade ficou mais amena. Fernando voltou à sua rotina normal. Mulheres, festas e reuniões. Agora, era outro! Nunca mais prometeu aquilo que não podia cumprir! Um dia, talvez ele voltasse a amar novamente!


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História triste, não? Verdadeira. Nós, cartomantes não somos adivinhas. Nem sempre temos a permissão de vasculhar certos segredos. Por que? Não sei. Cada um tem seu caminho para viver. A intuição de uma clarividente é espontânea. No entanto, nunca sabemos ao certo, se ela virá com objetividade ou parcialmente coberta por uma nuvem. Depende de muitos fatores: percepção do clarividente, o estado mental e emocional do consulente, entre outros.

Clarividência não é matemática. Na matemática, dois e dois são quatro. Na parte espiritual, nem sempre temos acesso completo ao futuro.

Em alguns momentos, os clarividentes podem até descobrir onde está uma pessoa desaparecida. Ajudam a polícia com informações precisas. No entanto, não temos controle absoluto da nossa clarividência.

Quando você for a uma cartomante se prepare bastante. Procure um profissional responsável e de coração caridoso. Certamente, ele estará amparado por anjos bons. Isso o auxiliará bastante! Mesmo que você não consiga saber tudo sobre seu futuro, sairá do atendimento mais calmo ou aliviado.

Ah, será que se Marta tivesse paciência, conquistaria o amor do Doutor Fernando? Pergunta difícil de responder, queridos internautas. Cada um tem sua forma de amar. E, às vezes, só quando perdemos é que valorizamos o ser amado. Por que será que o médico tinha um comportamento tão volúvel? Não sei. Falhas no caráter ou experiências dolorosas do passado. De qualquer maneira, nada é por acaso. Cada pessoa que aparece em nosso caminho é uma lição de aprendizado. Se raciocinarmos em termos de vidas sucessivas, talvez Marta e Fernando tivessem vivido algum romance em alguma vida passada. Talvez ela precisasse aprender a amar sem interesse, sem esperar nada em troca. O importante é o aprendizado de cada um!

E, se você tem um grande amor , cultive-o! Cuide dessa plantinha com cuidado, com atenção e muito carinho, senão, poderá ser tarde demais!

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